o buscador

Foto: Fabiana Mendonça

Eu vim aqui em busca, disse o homem A para o homem B. Em busca de quê?, perguntou B para A. Não sei, disse A para B.

Fez-se então um silêncio tão grande que dele surgiu o homem C.

Então C perguntou para A:

– O que você veio fazer aqui?
A: Eu vim em busca.
C: Em busca de quê?
A: Não sei.
B: Se não sabe, então por que busca?
C: Se não sabe, então como busca?
A: Não sei…
C: … então buscas assim, por buscar?
A: É… mais ou menos…
B: Mais? Ou menos?
A: Não sei…
C: Ah, francamente, não fazes senso!
A: É, eu sei.
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pensamentos vazantes I

Deve haver algo que fale da minha solidão. Em algum lugar alguém já falou disso. Mas em que livro, em que canto é que está a dor que agora procuro? Eis a dúvida. A cômica dificuldade desses dias super-informados. Tudo já foi dito. Resta saber onde, em que estante, em que página, em que faixa é que se encontra o que preciso.

Deve haver por aí alguém gritando minha dor, esse meu coração apertado, minhas esperanças perdidas. Eis a cômica dificuldade: está tudo aí, inalcançável, perdido, inoperante, nas nuvens. Tudo se misturando, deformando, condensando, esvaziando, evaporando. Esse excesso de dados que um dia cairá sobre nós como chuva ácida.

Deve haver em algum canto algo que fale por mim. As palavras exatas, precisas para minha libertação. Mas não as encontro. Então escrevo.

ali onde sou mar

Você se agarra à borda dos meus olhos com medo do mergulho. De fato, esses meus olhos verdes de águas profundas, nem sempre são seguros. São águas míticas onde cantam sereias e escondem-se monstros. Nas profundezas habitam serpentes marítimas e há um longo muro de corais. Existem, claro, perigosos rochedos aqui e ali. As águas aparentemente calmas guardam possíveis tempestades, maremotos, redemoinhos.

Mas há também ilhas paradisíacas onde vivem jovens virgens que aguardam ansiosas corajosos marujos. Nessas ilhas todo fruto é doce, todo descanso é reparador, todo amor é incondicional e livre de culpa.

Tudo isso sou eu, tudo isso lhe aguarda.

Mas você se agarra à borda e olha. Minhas águas verdes, disfarçadas de contas, lhe encaram. Você mergulhará?